Crush em Hi-Fi

Música, trilha sonora, CDs, discos, DVDs, mp3, wmas, flac, clipes, ruídos, barulho, sonzera ou como quer que você queira chamar.

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Os maravilhosos samples obscuros que Moby usou em seu disco “Play”, de 1999

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Em 1999, Moby lançou seu elogiado disco “Play”, o quinto de sua carreira. O álbum chamou a atenção por ter todas as canções licenciadas pelo artista para utilização em comerciais e trilhas sonoras. Ou seja: Moby dominou as paradas e aparecia inclusive nos intervalos comerciais.

Vale a pena garimpar atrás dos samples que Moby usou nas músicas. Muitos deles saem diretamente de gravações antigas e obscuras de soul, blues, gospel e jazz.

“Natural Blues”, lançado como single em 2000 acompanhado por um divertido clipe em animação, foi um dos maiores hits do disco.

Vera Hall gravou “Trouble So Hard” em 1959 no disco “Sounds of The South”. Nascida em 1902 no Alabama, Vera era uma cantora de Folk que cresceu em Livingston e ganhou exposição nos anos 30 com sua voz poderosa.

“Bodyrock”, hit que virou single em 1999 e apareceu até em trilha de Fifa Soccer, veio do finalzinho de “Love Rap”, de 1980, de Spoonie Gee and The Treacherous Three. Você ouve a letra aos 5:32 da música.

“Find My Baby”, último single do disco, foi lançado em fevereiro de 2001, com um clipe cheio de bebês superstars.

A voz do hit veio de “Boy Blue”, um blues incrível de Joe Lee’s Rock, lançado em 1959 pela Atlantic Records.

O mega-hit deprê “Why Does My Heart Feels So Bad” saiu em novembro de 1999 e fez sucesso com mais um clipe de animação que conquistou os espectadores da Mtv.

De onde veio a voz calejada e cheia de dor? The Banks Brothers and The Greater Harvest Back Home Choir, em “He’ll Roll Your Burdens Away”, lançada em 1963. Mesmo a voz “de mulher” que rola na música do Moby vem dessa música, em uma versão com o pitch alterado.

A colaboração com Gwen Stefani “South Side” saiu em 2000 e difere um pouco do restante do álbum, se aproximando mais de um single pop.

A bateria da música vem do The Counts. Você pode ouví-la na música “What’s Up Front That Counts”, de 1971 (aos 6:40):

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“The Roof Is On Fire”, de Rock Master Scott and the Dynamic Three, é a base de “Hey Boy, Hey Girl”, dos Chemical Brothers

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O single “Hey Boy Hey Girl” foi lançada pela dupla inglesa The Chemical Brothers em 1999 em seu disco “Surrender”. Passou boa parte do ano no topo das paradas, inclusive as da Mtv Brasil, com seu clipe cheio de esqueletos dançantes e transudos.

O sample do refrão “Hey girls, B-boys, superstar DJs, here we go!” veio de “The Roof Is on Fire”, de Rock Master Scott & the Dynamic Three. Lançada em 1984, a música chegou ao nº 5 da parada da Billboard Hot Dance Music/Maxi-Singles Sales.

“The Roof Is On Fire” é lembrada por seu característico refrão:

“The roof, the roof, the roof is on fire!
We don’t need no water
Let the motherfucker burn!
Burn, motherfucker, burn!”

Bom, esse refrão foi também usado pelo Bloodhound Gang em “Fire Water Burn”, segundo single do disco “One Fierce Beer Coaster”, de 1996. A música ficou em #18 na parada Modern Rock Tracks e em #28 na the Mainstream Rock Tracks da Billboard. Ah, e o clipe é em uma festinha animada em um asilo.

Como Fatboy Slim montou “Praise You” com um soul de 1975 e uma faixa de ensaios de piano

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Em 1998, o hit “Praise You”, de Fatboy Slim, dominava as rádios brasileiras. Um refrão repetitivo, um piano que gruda na cabeça e um clipe divertido fazem deste single um dos maiores sucessos de Norman Cook. Está presente em “You’ve Come a Long Way, Baby”, disco de maior sucesso do DJ.

A letra e voz vêm de “Take Yo’ Praise”, música de Camille Yarbrough lançada em 1975 em seu primeiro disco, “The Iron Pot Cooker”. Um soul funky de encher os ouvidos de qualquer um:

Já o piano que permeia toda a música saiu de um ensaio. Sim, do trecho de um ensaio de Hoyt Axton and James B. Lansing Sound Inc., que começa inclusive com risadas na faixa e contém interrupções. Esta jam, “Balance & Rehearsal”, está no disco “Sessions”, de 1973.

O trecho que Fatboy Slim usou começa aos 2min42seg desta faixa:

Solomon Death assina a trilha sonora do quadrinho “Apagão – Cidade Sem Lei/Luz”, de Raphael Fernandes e Camaleão

Imagem2Imagine que um dia a energia elétrica de todo o país acabe, sem previsão de voltar. Nada de tomadas, luz elétrica e muito menos telefones, rádio, TV e internet. As pessoas, assustadas, passam a formar gangues de acordo com suas ideologias, criando algo como um “Warriors” com nazistas, PMs sedentos por sangue, fanáticos religiosos que pregam o ódio, feministas extremas… Parece desesperador? Esse é o ponto de partida de “Apagão – Cidade Sem Lei/Luz”, com roteiro de Raphael Fernandes e desenhos de Camaleão (Revista Mad). O quadrinho, lançado pela editora Draco, ganhou uma trilha sonora que acompanhada o clima de desespero e violência.

Assinada por Solomon Death, projeto de Ron Selistre (ex-Damn Laser Vampires), a trilha acompanha a ascenção da gangue de capoeiristas Macacos Urbanos, uma das poucas que parece ter bom senso e quer reestabelecer a ordem em meio ao caos insano que o mundo se torna após o fim da eletricidade.

O lançamento de “Apagão” acontece em São Paulo no dia 25 de abril, na loja Geek da Livraria Cultura, no Conjunto Nacional, e no dia 2 de maio, na loja Comix Book Shop, na Alameda Jaú.

Conversei com Raphael e Ron sobre a trilha sonora e o projeto “Apagão – Cidade Sem Luz/Lei”:

– Vamos começar do começo: como rolou o convite pra fazer a trilha sonora do projeto Apagão?

Raphael: Quando tive a ideia de que “Apagão” poderia ter uma trilha sonora, eu não tive dúvidas. Procurei o Ron Selistre e falei que queria uma trilha do Damn Laser Vampires. A parte triste é que soube em primeira mão que o DLV havia encerrado suas atividades. Foi quando o Ron me falou que tinha um projeto paralelo chamado Solomon Death e me mandou um link do Soundcloud. O negócio não era o punk de garagem dos DLV, mas era um pós-punk extremamente competente e sinistro. Não tive dúvidas, queria aquele clima pra “Apagão: Cidade Sem Lei/Luz”.

Raphael Fernandes (Foto por Rafael Roncato)

Raphael Fernandes, autor de “Apagão”

Ron, qual foi a inspiração para criar as músicas da trilha de Apagão? Quais influências musicais você diria que as composições tem?

Ron: Acho que foi um processo automático, no sentido de uma coisa naturalmente puxar a outra; eu não tinha lido a HQ ainda, mas a descrição que o Rapha me passou era bastante tridimensional. Uma guerra de gangues durante um black-out em São Paulo, envolvendo capoeira, skate e algum misticismo, isso foi o suficiente pra me instigar. As próprias influências que ele e o Camaleão tinham pesquisado pra fazer a história já traziam muita música embutida: “Warriors”, por exemplo, tem uma trilha clássica. Mas não era minha intenção seguir aquela linha, acho que ela foi bastante reeditada por muita gente. E uma das coisas que me atraía era a ideia de compor uma trilha pra uma história sombria e violenta sem precisar necessariamente apelar pra algo hardcore. A violência, o perigo, a tensão precisavam estar na música, mas num nível mais “frio na espinha” e menos soco na cara. Durante as conversas com o Rapha ele mencionou a trilha do game Streets of Rage, e foi quando fez sentido qual era a direção a seguir – a trilha de Apagão seria algo nostálgico, alguma coisa que combinasse com a estética dos games dos 90. O que tem relação nítida com o que o Vangelis fez pro Blade Runner, ele foi inegavelmente uma influência forte.

– A história já começa citando “Bichos Escrotos”, dos Titãs, em suas primeiras páginas. Esta música influenciou em algum sentido a trilha?

Raphael – Não sei se o Ron teve acesso a essa informação quando começou a gravar, pois eu estava falando com o Nando Reis para conseguir a autorização. O que posso afirmar é que eu e o Camaleão fomos influenciados pela música desde o começo. Praticamente escrevemos a abertura de Apagão como uma abertura de filme com uma trilha sonora forte. O Camaleão é doente por música dos anos 80 e fiz questão de colocar algo desse período para ele desenhar!

Ron – Sobre a inclusão de “Bichos Escrotos” na HQ, eu só soube muito depois que a trilha já estava adiantada. Achei que tem tudo a ver. Apesar da história ser ambientada num tom futurista, sempre a imagino como algo totalmente inserido no pós-punk brasileiro dos 80, aquele cenário Carecas do ABC. Numa realidade paralela, “Apagão” pode ter sido lançada em capítulos num zine em xerox ali por 86.

Imagem1Falem 5 músicas que vocês escolheriam para colocar em uma playlist se vivessem no universo de Apagão. (Lógico, se tivessem a sorte de ter um celular, walkman ou mp3 player com bateria!)

Raphael – Eu sempre monto trilhas sonoras para ouvir enquanto escrevo e edito meus projetos. Posso dizer que as 5 mais importantes para este projeto foram:
“Pânico em SP”Inocentes
“Oi, tudo bem?”Garotos Podres
“São Paulo”365
“Isto é Olho Seco”Olho Seco
“São Paulo By Day (Trombadinhas da Cidade)”Joelho de Porco

Ron – Minha playlist no universo de Apagão seria:
“Sobre as Pernas”, Akira S e as Garotas que Erraram
“Tão Perto”, do Cabine C
“Proteção”, da Plebe Rude
“Gotham City”, do Camisa de Vênus
“Me Perco Nesse Tempo” das Mercenárias

Raphael – Cara, praticamente a outra metade da minha trilha. (Risos)

– O que rolou com o Damn Laser Vampires e qual é a proposta do Solomon Death?

O DLV terminou porque chegamos numa conclusão pra história. Era o fim daquele trabalho, só isso. Ninguém brigou, ninguém se separou, pelo contrário. Tivemos um meio e um início incomuns. Decidimos que teríamos um fim incomum. O Solomon Death é essencialmente uma coleção de baladas e canções synth pop gravadas com tecnologia muitíssimo baixa. Sou eu, um computador e às vezes um violão ou uma guitarra. Me dá muito prazer fazer isso.

– Qual a importância da trilha sonora para uma história em quadrinhos?

Ron: Eu costumava ler ouvindo música, especialmente quadrinhos. Hoje gosto de ler em total silêncio, mas é diferente pra cada pessoa. O Rapha, na condição de autor, pode falar melhor sobre a ideia dele de pensar em uma trilha pra “Apagão”; na minha visão, quadrinhos são uma mídia tão espetacularmente rica que em muitos casos você pode ouvir música ali sem existir realmente uma trilha sonora. A trilha de Apagão é um “nível extra” na coisa, uma materialização dessa ideia.

Raphael: Concordo com o Ron, a trilha sonora é a oportunidade de uma nova experiência de leitura. Afinal, as HQs acabam gerando sons e efeitos no leitor apenas através de sua riquíssima linguagem.

11130050_789232991173204_1657630918_n– Ron, você já havia feito alguma trilha sonora antes?

Ron: Fiz as trilhas das campanhas de lançamento do Fantaspoa (o Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre), do qual fui diretor de arte, nas últimas três edições.

– Quais são suas trilhas sonoras preferidas?

Ron: São muitas. Ficaria dando nomes de trilhas até amanhã. Vou citar três. “Bram Stoker’s Dracula” do Wojciech Kilar, a trilogia Star Wars do John Williams, e “Blade Runner” do Vangelis. E das mais recentes, a trilha do “Drive” é absolutamente perfeita. Fora do “formatão Hollywood” eu amo o que o Neil Young fez em “Dead Man”.

Raphael: Minhas trilhas favoritas são nada a ver com “Apagão”. Meu primeiro CD foi a trilha de “Batman Forever”, que eu gosto até hoje. Outra que ouvi bastante foi a trilha de “Alta Fidelidade”. Recentemente, eu me vi apaixonado pelas trilhas de “Scott Pilgrim Contra o Mundo” e “Guardiões da Galáxia”.

– É a primeira trilha sonora de quadrinhos que eu conheço. Esse tipo de trilha já rola normalmente?

Ron: Não tenho notícia de outras trilhas de HQ, mas imagino que existam. Presumo que vamos começar a ver mais. Seria legal.

Raphael: Existem outras trilhas sonoras, como a trilha de “Achados e Perdidos”, que foi a grande inspiração para fazer um para “Apagão”. “Achados” foi o primeiro projeto de quadrinhos financiado através do Catarse. No entanto, eu já vi o contrário. Um disco que gerou uma história em quadrinhos: “Greendale”, de Neil Young.

– O quanto a trilha sonora de Apagão influencia na experiência do leitor?

Ron: Espero que seja uma soma na experiência. Mesmo antes de a HQ sair, a gente já tem relatos de pessoas que dizem usar a trilha pra trabalhar, o que sugere que ela ajuda em algum processo criativo. Ler é um processo de co-criação, então acho que conseguimos alguma coisa.

Raphael: Nossa ideia é que a trilha sonora levasse o leitor para dentro daquele universo tenso e sinistro de uma cidade grande dominada pelo caos e a violência. O trabalho do Ron superou em muito qualquer das minhas expectativas e acrescenta bastante à obra.

envelopeju.cdrOuça a trilha de Solomon Death para “Apagão – Cidade Sem Lei/Luz” aqui:

Vermelho, vermelhaço, vermelhusco, vermelhante: 5 bandas vermelhas que vão ferver seu sangue

O vermelho tem sofrido um grande preconceito hoje em dia. Tem gente (e até cachorro!) apanhando na rua só por estar vestindo vermelho, o que é uma coisa horrível. Vermelho é uma cor tão importante pra música, poxa! Lembrem-se do Red Hot Chili Peppers. O disco “Red” do King Crimson. O Simply Red. O disco “Red” da Taylor Swift. Os “red albums” do Weezer e do The Game. As roupinhas de Jack e Meg White no White Stripes.

Tá, não foram todos grandes exemplos, mas enfim: vamos a cinco bandas que conheci recentemente e fazem jus à força que a cor vermelha sempre representou. Ou você acha que o líder dos Power Rangers, Changeman, Maskman e todos tokusatsus era vermelho por acaso?

Red Boots
Gênero: Vermelho-sangue

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O duo de Rio Grande do Norte é formado por Luan Rodrigues (guitarra, voz) e Gil Holanda (Bateria) e em 2014 lançou o disco “Touch The Void”, que não deve nada pras bandas de stoner internacionais. O primeiro disco, “Aracnophilia”, de 2011, também vale a ouvida.

Blood Red Shoes
Gênero: Vermelho-diabo (vestindo Prada)

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Outra dupla, desta vez vinda de Brighton, na Inglaterra. Formada por Laura-Mary Carter (vocal, guitarra) e Steven Ansell (bateria, vocal), a banda já lançou quatro discos: “Box of Secrets” (2008), “Fire Like This” (2010), “In Time to Voices”(2012), e “Blood Red Shoes” (2014), além de vários EPs e vinis 7″. O nome foi tirado de um musical de Ginger Rogers e Fred Astaire e o som é o velho rock alternativo com pitadas de grunge, garage e punk.

Red Fang
Gênero: Vermelho-Bloody Mary

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O quarteto de Portland, Oregon, passeia entre o heavy metal e o stoner rock sem abaixar o volume em nenhum momento. Formada por Bryan Giles, Aaron Beam, David Sullivan e John Sherman, a banda existe desde 2005 e lançou três discos: “Red Fang” (2009), “Murder the Mountains” (2011) e “Whales and Leeches” (2013). Os clipes da banda são em sua maioria divertidíssimos, o que ajudou a popularizar ainda mais o som dos americanos.

Russian Red
Gênero: Vermelho-União Soviética

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Apesar do nome, a cantora Lourdes Hernández, codinome Russian Red, veio da Espanha. Chamada de “a Feist da Espanha”, Russian Red escreve sempre em inglês e está na ativa desde 2007. Já lançou três discos: “I Love Your Glasses” (2008), “Fuerteventura” (2011) e “Agent Cooper” (2014), disco que a trouxe ao Brasil, onde se apresentou no festival No Ar Coquetel Molotov, no Recife, e no Sesc Vila Mariana, em São Paulo.

A Tribe Called Red
Gênero: Vermelho-urucum

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O trio canadense A Tribe Called Red faz música eletrônica que mistura elementos de hip hop, reggae, moombahton e dubstep, sempre com muita percussão na mistura. Formada pelos DJs Ian “DJ NDN” Campeau, Tim “2oolman” Hill e Bear Witness, a banda define seu som como “powwow-step” e já lançou dois discos: “A Tribe Called Red” (2012) e “Nation II Nation” (2013).

O grafiteiro Ricardo Tatoo fala de Ratos de Porão, Cavalera, stencil, capas de discos, SPFW e música, muita música

545722_482319995116431_1464404408_nRicardo Tatoo tem 43 anos e já fez muita coisa relacionada à música e arte. Formado em programação visual, foi um dos primeiros artistas a atuar com o “stencil-graffiti” no Brasil. Seu trabalho já esteve em galerias de arte e intervenções públicas no Brasil e na Europa.

Foi o responsável pela linguagem visual de marcas como Cavalera e Harley-Davidson. Além disso, criou capas para discos de bandas como Inocentes, Rodox, Nitrominds, Sepultura e Cordel do Fogo Encantado, entre muitas outras. A mais atual é “Século Sinistro”, elogiado disco de 2014 do Ratos de Porão.

Através do projeto Arte Ataque Oficina, Tatoo também ministra oficinas de graffiti em faculdades, ONGs e centros sócio educativos, sempre usando a linguagem da arte de rua como instrumento de transformação social  e valorização da diversidade cultural brasileira.

Conversei com Tatoo sobre sua carreira, sua passagem de sucesso pela grife Cavalera, seu trabalho com o grafitti e a relação constante de todos seus trabalhos com a música:

– Eu sei que seu trabalho principal é a arte urbana e o grafite. O quanto disso está relacionado à música?
Meu trabalho se afinou com a música quando fui diretor de arte da marca streetwear Cavalera, de 1998 a 2005. Lá conheci e parcerei com grandes nomes da música: a banda Inocentes, Iggor Cavalera, Rodolfo Abrantes, Cássia Eller, Marky Ramone, Bruce Dickinson, TSOL, Agent Orange, Tihuana, Dudu Nobre, Ice Blue, Grinders, Nitrominds, Cordel do Fogo Encantado… A marca patrocinava bandas como estratégia de marketing e essa parceria me acrescentou um grande mergulho na arte e música. Estes citados são apenas alguns, sendo que com alguns tenho grande afinidade até hoje e outros apenas de passagem.

– Você já trabalhou bastante no meio musical. Fale um pouco de suas experiências.
Fiz boas parcerias com bandas e isso me enriqueceu muito de cultura. Quando conheci Iggor Cavalera e sua postura de protesto, em 1998, consegui enfim canalizar minha insatisfação com as mazelas deste mundo caótico e transformar em arte de protesto. Eu e Iggor fizemos algumas parcerias na arte urbana, grafitando o bar Sarajevo (SP), por exemplo. Iggor me convidou para fazer a capa do segundo álbum do Sepultura com o Derrick Green no vocal, “Nation”, onde criei o logo pentagrama com o clássico logo “S” e os desenhos iniciais. Depois destes layouts, o artista urbano Sheppard Farey enfim desenvolveu a capa.

Outro grande parceiro da mesma época é o Clemente (Inocentes). Trabalhávamos juntos e na época ele me convidou pra fazer a capa do histórico álbum “Garotos do Subúrbio”, relançado em CD na época. Grande honra, pois tem as músicas que mais gosto até hoje. Eu e Clemente nos tornamos grandes amigos e até hoje produzo as capas dos álbuns dos Inocentes, contabilizando uns 9 álbuns mais ou menos (perdi a conta!) e algumas estampas de camisetas. Atualmente estou criando a capa do próximo EP em vinil que sairá este ano ainda.

Fiz o logo da banda pós-Raimundos do Rodolfo Abrantes, o Rodox. Minhas estampas “TV Kills” foram parte integrante da bandas no álbum e apresentações.

Várias outras parcerias se formaram. Um dos grandes é André Alves, do Statues on Fire e ex-Nitrominds, para quem fiz artes para cartazes e capa de CD. O punk, o rock e a sua característica cultura do faça-você-mesmo, me proporcionam trabalhar com pessoas que desde sempre nadaram contra a maré e arregaçam as mangas muito antes desta facilidade tecnológica de hoje em dia. Atitude e protagonismo real.

– A capa do disco “Século Sinistro” (2014) do Ratos de Porão é sua. Qual foi a ideia pra criar essa capa?
Esta história é massa: em outubro de 2013 eu estava em Cianorte (PR), ministrando uma palestra e oficinas sobre arte urbana e graffiti stencil, quando recebi uma mensagem insana do João Gordo, que até então não conhecia (fora nas dezenas de shows que assisti). Na mensagem ele comentava sobre uma série de artes que fiz para um álbum split onde o Ratos de Porão cantaria Sepultura e Sepultura cantaria Ratos de Porão. De fato a arte ficou muito boa, em 2000 mais ou menos, mas não rolou por causa da mulher do Max Cavalera que deu uma de Yoko Ono e barrou o projeto. É o que sei sobre a não realização do split.

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Enfim, estava em Cianorte e a mensagem dizia: “Salve seu Tatoo, tudo bem? A arte do split RxDxPx Vs. Sepultura é realmente sua? Tenho esta arte no meu banheiro e sempre que tô cagando fico olhando pra ela. Daí surgiu a ideia: Você quer fazer a capa do próximo álbum do Ratos?” (risos)

Uma vez uma garota queria comprar um quadro meu pra por no banheiro dela e eu me ofendi. Disse que pro banheiro ela poderia comprar aqueles quadros com chimpanzé escovando os dentes, jogando sinuca… e no fim, mordi a língua. De todos os trabalhos com bandas, este é de longe o mais relevante e importante para mim e foi inspirado num momento de reflexão no trono.

A concepção total foi obra do João Gordo. Fui o decodificador, mas o cara é gente boa demais, e muito esclarecido. Sugeri que a arte fosse feita em uma grande tela de canvas e de usarmos a técnica do graffiti stencil. Expliquei que o graffiti no Brasil começou com o estilo stencil, no final dos anos 70, e sua origem vem de referências do movimento punk de protesto europeu e dos álbuns de heavy metal, assim a arte ganharia alma e sairia do pasteurizado digital. Como o álbum foi gravado analogicamente, isto é, ao vivo e sem aquele retoque de protools e etc, o João acatou a ideia: fomos além do layout digital e a arte que ele aprovou virou uma tela de +- 9 x 2,5m ao todo, contando capa, contra capa e fundo para as letras das músicas.

10499352_1012759255405833_7779136306767506852_o– Na sua série “Heróis do Brasil”, você compara Luiz Gonzaga a Elvis.
A ideia do Gonzagão ser o Elvis é apenas uma brincadeira no estilo Pop Art. Por que valorizar apenas a cultura estrangeira? Às vezes uma paródia vale como reflexão.

– Quais são suas bandas preferidas?
São muitas, entre bandas, artistas solo e grupos de rap…
Brasil: Ratos de Porão, Inocentes, Autoramas, Sabotage, Flicts, Polara, RZO, De Menos Crime, GOG, Gonzagão, Garotos Podres, Zefirina Bomba, Devotos, o Rappa, Agrotóxico, Nação Zumbi, Dead Fish e Questions.
Gringos: Ramones, Red Hot Chili Peppers, John Frusciante, AC/DC, Atari Teenage Riot, Rob Zombie, Turbonegro, Motorhead, Mudhoney, Descendents, Bad Religion, Face to Face, Kiss, Fugazi, Monster Magnet, Misfits, Rasta Knast, Husker Dü.

– A música inspira seus grafites?
Musica definitivamente é alimento da arte. Sem trilha sonora não existe inspiração. Em todos os álbuns que fiz a capa, obrigatoriamente preciso ouvir o som do álbum. O legal disso é ouvir os sons em primeira mão, muitas vezes no momento da gravação, no estúdio.

– Já foi convidado pra criar mais capas de discos este ano?
Sim. Atualmente estou produzindo o novo EP dos Inocentes e o CD da banda Guerrilha. Já fiz Cordel do Fogo Encantado, Flicts, RDP, Inocentes, Nitrominds/D.Sailors.., preciso lembrar, são muitos!

10612796_948579311823828_5879596926075091768_n– Você já trabalhou na Cavalera. Qual era seu trabalho lá?
Era diretor de arte. Entrei quando a marca tinha dois anos de vida e estava em vias de falência por causa de separação de sociedade. Ao assumir a direção, decretei a arte da Fênix, que já existia como uma estampa da série brasões como logotipo oficial e assim a marca ganhou identidade e literalmente decolou.

Comecei como diretor de arte de ninguém, pois só eu desenhava para a marca. Mais tarde tive uma equipe de arte com uns 15 designers, no auge da produção da marca. O carro chefe era e ainda é estamparia em camisetas. Também fazia vitrines, cenários de desfiles, campanhas, tags, adesivos, catálogos, campanhas fotográficas, convites para desfiles, dirigia o conceito das trilhas sonoras de desfile, que teve DJs como Kid Vinil, DJ Zegon (Planet Hemp e Tropkillaz), Iggor Cavalera, DJ Marky, DJ Patife, Edu Corelli, entre outros. Minha direção com estas feras do som era dar total liberdade e botar peso no som. (risos) Bom demais.

Também criava os temas das coleções junto da equipe de estilo, e o que mais precisasse. Carregar cenário, varrer… Vestia a camisa de corpo e alma. Com certeza foi o auge da minha carreira quando trabalhava no sisteminha de funcionário de empresas e etc, pois aliar música e arte é o sonho de todo artista.

– Você tinha muitos contatos ligados à música naquela época, certo?
Muitos. Difícil é lembrar quando se vivencia. Recebi as bandas TSOL e Agent Orange na loja Cavalera, pois como citei, a marca patrocinava bandas com suas roupas como estratégia de marketing. Este era o momento áureo da minha carreira, pois ganhava ingresso para qualquer show que quisesse. Qualquer show mesmo. Era só ligar pra secretária do dono da marca e dizer qual show e que rádio patrocinava que ela retornava perguntando se eu queria camarote ou pista. Lógico que a resposta era pista. No caso do show do TSOL e Agent Orange, rolou camarote (gentileza das bandas), e logo na primeira música o vocal do Agent Orange me reconheceu e me cumprimentou. São bobagens boas de se viver.

Viajar pra Nova Iorque e Califórnia com Ice Blue (Racionais MCs) a trabalho também foi algo absolutamente inusitado. Cabaço que sou, fiquei com meio medo dos rolês que fizemos. Deixei de ir em algumas festas com Blue porque era só mano quente. Eu com essa cara de latino não encarei as mais roots. (risos)

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Conhecer Bruce Dickinson, Marky Ramone, Cássia Eller, recebê-los na fábrica e tratar diretamente com eles, quebrando aquela imagem de que personalidades famosas são seres de outro mundo e sim pessoas de verdade, valeu como lição de vida.

Uma passagem marcante na Cavalera era o momento de apresentar a coleção da marca para o Iggor, que leva o nome da marca. Como ele é muito ligado às artes e comportamento, toda coleção era passada pela aprovação dele antes de ser produzida. Pra quem não acompanha a moda, assim como eu era, vale entender que de 6 em 6 meses as marcas fazem uma coleção nova, isto é, todo semestre é criada uma série de roupas e acessórios de acordo com um tema pré estabelecido. Na minha época os temas eram insanos, tal como realismo fantástico, novelas antigas (deboche da tevê), medidas de segurança, motocross e etc.

Depois que a equipe de criação, que era uma equipe de ouro, desenhava as roupas e eu as estampas e o Iggor voltava das turnês mundo afora, rolava uma reunião de apresentação dos desenhos da coleção. Nas reuniões os estilistas explicavam tudo que rolou. O tema, os desenhos das roupas, eu falava das estampas, e por aí vai. Frequentemente ele via tudo calado e só falava: “Legal. Legal. Legal”, na tentativa de encurtar a reunião. Aí a reunião acabava, todos saíam da sala e eu ficava pra gente conversar informalmente, sobre as turnês, som, arte de protesto… papo furado. Mas na real, aquela hora era a hora que ele se sentia a vontade de dizer o que realmente achava de verdade da coleção. Não precisa dizer que moda tende ao lado fashion. Afinal, é moda. Aí ele falava: “Cara, como vou vestir estas roupas? Sou baterista! Não dá pra usar estas roupas modernas!” Aí ele explicava sua opinião e eu “traduzia” pra equipe de estilo. Fazia um pente fino com ele e repassava pra equipe.

O massa da Cavalera é a ligação da moda com a música. O momento mais legal da minha carreira. Muita música e liberdade total para criar. Nos eventos do São Paulo Fashion Week, a Cavalera era a marca mais esperada. Fazíamos cenários malucos, convites malucos e trilhas sonoras insanas! Igualmente os convidados para assistir os desfiles também eram pra lá de inusitados.

Uma vez, na coleção “Realismo Fantástico”, um dos convidados foi o mutante Arnaldo Baptista. Pode não parecer, mas o mundo da moda é um lugar de muito trabalho sério e grande responsabilidade, pois esses eventos são como grandes circos. Muita gente trabalhando, desde faxineiros a eletricistas, técnicos de som, costureiras, seguranças, celebridades, etc. Nessa maluquice toda, o Arnaldo e sua esposa, Lucinha, ficaram meio deslocados, já que chegaram antes do evento, durante a montagem. Foi um dos momentos mais gratificantes de estar nesse meio da moda. Consegui encaminhar minha parte do trabalho e fiquei com Arnaldo batendo papo furado. A luz e simplicidade dele é encantadora. Ele achou tudo lindo, as pessoas lindas, as luzes… Existe algo de especial nele que dá pra identificar nas músicas e entrevistas antigas. O modo de falar. No fim das contas consegui assistir o desfile ao lado dele, Lucinha e da Sonia Abreu, a primeira DJ do Brasil, lendária pelo seu programa “Músicas do Quarto Mundo”.

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– Você já teve alguma banda?
Eu me contento como fã. Até hoje gosto de ir perto do palco e pogar. Só mosh que não faço mais. Tô velho.
Não sei tocar instrumento algum. Só tinta mesmo.

Descubra como Tati Quebra Barraco tirou “Boladona” de uma “Lovestory” e dominou as paradas em 2004

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Em 2004, “Boladona” invadiu as rádios, festas e todo canto. Tati Quebra Barraco fazia um hit sem seus habituais palavrões e a letra até que é bem comportada perto de pérolas impublicáveis como “Dako É Bom” e “67 Patinete”.

É lógico que “Boladona” contava com um sample que fazia a música grudar na cabeça:

O que você não sabia é que a progressão de acordes de teclado que você conhece como “Boladona” foi sampleada diretamente de “Lovestory”, música de 2002 da dupla de DJs inglesa Layo & Bushwacka!

Layo é um dos donos da balada The End em Londres, onde Bushwacka (Matthew Benjamin) era DJ. Os dois são contratados da famosa XL Recordings.

O clipe de “Lovestory” é bizarro e parece ter vindo da série freaky japonesa Funky Forest:

O “Robot Rock” do Daft Punk veio diretamente do funk da Philadelphia no fim dos anos 70

Uma das grandes músicas do disco “Human After All” do Daft Punk, lançado em 2005, “Robot Rock” tem um riff que gruda na cabeça mais rápido do que você pode dizer “cucamonga”. É ouvir uma vez e sair cantarolando o riff feito pela dupla francesa o resto do dia.

Um vocoder com os dizeres “robot rock” permeiam a música, enquanto Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo tocam como um power duo no clipe:

A música é praticamente toda derivada de “Release The Beast”, da banda Breakwater. A banda de funk e soul veio da Philadelphia e foi formada em 1971, formada por Gene Robinson, James Gee Jones, Linc ‘Love’ Gilmore, Steve Green, Vince Garnell, Greg Scott, John ‘Dutch’ Braddock, e Kae Williams, Jr. “Release The Beast” está no segundo disco do grupo, “Splashdown”, de 1980. Afaste os móveis e dance aí!

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